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TRÂNSITO, O MITO DA CAVERNA

O frio cálculo numeral se expõe na medida em que as mesmas 12 vidas, salvas na caverna asiática, são perdidas a cada 120 minutos no trânsito em nosso País.

Uma brisa de alento e de alívio percorreu o planeta com o sucesso do resgate dos 12 meninos da caverna da Tailândia, que atraiu a atenção do mundo todo por mais de duas semanas. O desafio enorme de retirá-los com vida do complexo de grutas, a um quilômetro da luz do sol, foi comemorado intensamente.
A manchete do Jornal Nacional divide o mundo sensível do inteligível em que o filósofo grego Platão, em sua metáfora ‘Mito da Caverna’, explica a condição de ignorância em que vivemos e o que seria necessário para atingir o verdadeiro ‘mundo real’. 

O frio cálculo numeral se expõe na medida em que as mesmas 12 vidas, salvas na caverna asiática, são perdidas a cada 120 minutos no trânsito em nosso País. E que não atraem o interesse mundial com a mesma intensidade. Como resolver o problema? É preciso melhorar as vias, estradas, ruas e calçadas e garantir a segurança de todos os usuários.

A falta de segurança para pedestres e ciclistas está relacionada ao modelo de mobilidade urbana brasileiro, centrada no uso do carro. Calçadas estreitas e mal conservadas, muitas vezes com obstáculos como lixo, postes, jardins, árvores que dificultam a passagem, demonstram a prioridade da fiscalização pública pelos carros em detrimento ao pedestre.

Mudanças estruturais, no entanto, podem não ter efeito significante sem a diminuição dos limites de velocidade. A máxima recomendada pela OMS é de 50 km/h em vias arteriais. Na França, por exemplo, o limite caiu de 60 para 50 km/h nos anos 1990 e estimativas indicam que tenha evitado 14 mil acidentes só nos dois primeiros anos.

Muitas vezes a redução da velocidade esbarra na ideia equivocada de alguns governantes populistas de que pode haver um aumento do congestionamento. Para diminuir essa resistência, o papel da mídia e do poder público são fundamentais. 

É necessária a responsabilidade do governo de qualquer esfera, preso a ideias pré-estabelecidas com informações e conceitos que lhe foram impostos por um grupo dominante. É preciso ter clareza e até coragem para dizer que há medidas impopulares, mas que precisam ser feitas.

Só é possível conhecer a realidade quando nos libertamos de determinadas influências culturais e sociais, ou seja, quando saímos da caverna. A questão da segurança tem de vir na frente. O custo das vidas é muito alto.

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