Mulher, sororize-se!

Sicredi reúne mulheres em seu 1º Summit dos Comitês Mulher. Nos dias 13 e 14 de novembro, colaboradoras, associadas e convidadas especiais assistiram palestras de mulheres inspiradoras. Na pauta, liderança, gestão e feminismo

Texto Rejane Martins Pires
Fotos Estúdio Rafael Danielewicz

“Mulheres, saiam do silêncio!”. A frase na voz masculina de Manfred Dasenbrock, presidente da Central Sicredi PR/SP/RJ e presidente nacional do Sicredi, durante a abertura o 1º Summit dos Comitês Mulher, ecoou quase como uma súplica para as dezenas de mulheres presentes no evento. Romper o silêncio, para Dasenbrock, significa trazer as mulheres para o debate e para as salas de decisões.

Para isso, é preciso mudar a “cultura da mulher”, sem cair na armadilha de que igualdade entre homens e mulheres no ambiente do trabalho é algo superado. Não é. Prova disso estão nos números internos da própria cooperativa. Enquanto mais de 54% da força de trabalho é feminina, há uma escassez de mulheres em cargos de liderança. Apenas três presidentes de cooperativas ligadas à Central PR/SP/RJ são mulheres.

A realidade dentro da sociedade e no mercado de trabalho ainda é muito dura e injusta com as mulheres. “Os avanços são lentos”, afirma. “A boa notícia, porém, é que cada vez mais as empresas estão apostando na diversidade e, quando se tem diversidade como missão e propósito, estas barreiras naturalmente diminuem”. A valorização da mulher, explica Dasenbrock, é uma das bandeiras do Sicredi. “A mulher tem visão holística, maior capacidade de justiça e sua participação aumenta a criatividade e eleva o nível das decisões”, diz.

 

Sororidade, o que é isso?

A palavra “sororidade” não aparece nos dicionários clássicos de língua portuguesa, mas está disseminada nas redes sociais. A aparente complexidade do termo se resume em três verbos: respeitar, ouvir e dar voz às mulheres. Traduzindo em miúdos, trata-se de uma aliança baseada na empatia e no companheirismo, desconstruindo a ideia de que as mulheres são rivais. “Tem um conceito na sociologia que é a solidariedade, mas não é essa solidariedade que a gente conhece, como uma caridade simples, de dar alguma coisa, tipo uma esmola, não desse tipo. É solidariedade no sentido de formar uma rede que possa servir de apoio”, explica uma das palestrantes do evento, Gisele Gomes.

Ela integra Sister Society Brasil – grupo de mulheres que faz parte da Global Women’s Leadership Network (Rede Global de Mulheres Líderes) e toca na ferida da lógica patriarcal de que as mulheres são inimigas entre si. “Temos que olhar com olhares neutros para outras mulheres. Às vezes, quando uma mulher chega numa posição de poder, a gente acaba enfraquecendo-a. Devíamos nos fortalecer para que mais mulheres também cheguem a posições de destaque. Uma crescendo faz as outras crescerem”, diz.

Limpar a visão de preconceitos é o primeiro passo. Evitar julgamentos é o segundo. Os próximos? Depende de cada uma. “Com este evento, o Sicredi deu um direcionamento a muitas mulheres ao entregar um programa executivo com bastante subsídio, pois muitas querem se qualificar, mas não sabem onde buscar isso”, ressalta Gisele, para quem o 1º Summit é um marco na construção e fortalecimento do protagonismo feminino dentro do Sicredi.

 

O dia em que Maroan sentou-se ao chão

 

O que fazer quando sua filha adolescente lhe chama para um debate sobre machismo? Certamente, a primeira reação é negar que haja desigualdade de gênero e até sugerir um certo “exagero” como fez o diretor executivo da Central Sicredi PR/SP/RJ, Maroan Thomé. Bastaram duas ou três palavras para ele sentar-se ao chão e ouvir atentamente as lições da filha.

Ali, no mais absoluto silêncio, uma jovem voz feminina o fez refletir sobre questões até então ignoradas como femismo (sinônimo do machismo), feminismo, clichês de gênero, estereótipos, preconceito, racismo e a necessidade de ações que mudem o status quo atual, a exemplo da representação das mulheres negras nas novelas, em regra relegadas a papéis secundários.

Os argumentos eram tantos e tão sólidos que Maroan olhou-se à volta e viu-se diante de uma bolha. O mundo estava além de sua casa e de seu trabalho. Ao contar esta pequena história durante o 1º Summit, o executivo comoveu por uma questão muito simples: por mais que os números apontem a desigualdade, o grito de alerta veio da filha. “Só aí me dei conta que vivemos numa sociedade moderna em tecnologia, mas medieval em relação a preconceitos”.

 

O dia em que a ex-consulesa da França no Brasil chorou

 

A ex-consulesa da França no Brasil, Alexandra Loras, não é uma mulher comum. Mas também é uma mulher comum. Ao narrar sua trajetória de vida como uma das palestrantes do 1º Summit, é franca. Nascida na periferia parisiense, é filha de mãe francesa e pai gambiano. Única negra entre os cinco irmãos, frutos dos quatro casamentos da mãe, perdeu o pai, ainda na adolescência. Dependente químico, ele virou morador de rua e despediu-se do mundo em silêncio. Talvez isso explique em parte a voz profunda de Alexandra. Jornalista formada na Sciences Po e mestre em Ciência Política, ela tornou-se referência como ativista negra e feminista. Casada com o diplomata Damien Loras e mãe de Raphael, faz palestras mundo afora, cativa, empolga e inspira pela sua articulação e engajamento. Circula pela elite paulista da mesma forma que circula pela periferia semeando sonhos entre os jovens. E faz isso naturalmente, como uma pessoa que vê o mundo um espaço para todos e, embora, brilhe no palco defendendo uma reconstrução de narrativas e um reequilíbrio na história, também chora quando chega em casa e é questionada pelo filho. Mas isso é assunto para a próxima edição da Revista Aldeia.

 Sororizar é um verbo que não existe no dicionário. Como a língua portuguesa é patriarcal, vamos inaugurar este verbo aqui. Assim, “sororizar” vem de sororidade que, no bom feminino, significar fraternizar.

 

ENTREVISTA

“Empreender é ter atitude para a vida”

 

A publicitária Ana Fontes, fundadora da Rede Mulher Empreendedora (RME), com mais de 300 mil empresárias cadastradas, fala à Revista Aldeia sobre o protagonismo feminino no empreendedorismo e a importância de se mudar a cultura do machismo presente na sociedade, em que mulheres não ocupam as mesmas posições de liderança que homens, além de não possuírem os mesmos direitos e privilégios. Durante o 1º Summit dos Comitês Mulher, Ana ressaltou que as mulheres estão empreendendo mais, movidas, em parte, por conta dos ambientes hostis corporativos. “Hoje já somos mais de 50% dos novos negócios, a maioria em áreas de conforto (moda, beleza e comércio) ou em áreas de conhecimento que dominam”, frisa. Acompanhe a entrevista.

 

Uma maior participação feminina no empreendedorismo resultaria num mundo mais justo? 

Com certeza, não apenas no empreendedorismo. Recentemente, um relatório da Organização Internacional do Trabalho apontou que reduzir as desigualdades de gênero em 25% até 2025 poderia adicionar US$ 5,8 trilhões para a economia global. Nós fizemos uma pesquisa com 800 empreendedores e descobrimos que elas investem principalmente na educação dos filhos e bem estar da família. Esse não é um resultado único da nossa pesquisa, o GEM fez uma pesquisa em 63 países, entre eles o Brasil, e identificou que as brasileiras têm cinco vezes mais participação que os homens em negócios de educação, saúde e bem-estar social.

 

Em regra, na sua opinião, o que motiva as mulheres a empreender?

Muitas vezes a necessidade, principalmente quando são mães/chefe de família. Sabemos que existe uma dificuldade em conciliar a maternidade e um trabalho formal, sem flexibilidade. Em nossa pesquisa “Empreendedoras e seus negócios 2017” identificamos que a maioria começa a empreender porque não conseguiu recolocação no mercado ou para ganhar maior flexibilidade de horários.

 

O perfil da mulher empreendedora mudou nos últimos anos?

Elas estão empreendendo mais, elas começam pelas áreas de conforto ou de conhecimento que dominam, mas migram para áreas mais inovadoras a medida que se sentem mais seguras. Elas mudaram em relação a networking hoje entendem a importância e constroem relações para fortalecer os negócios e também estão buscando mais conhecimento principalmente em gestão de negócios e finanças. Isto é fundamental para o desenvolvimento dos negócios.

 

O que toda mulher empreendedora iniciante deve saber? 

Que ela não irá trabalhar menos do que em um emprego formal. Isso é um mito! A dedicação, principalmente nos primeiros anos, será até maior. Fora isso, meus conselhos são: Conheça o universo empreendedor, acompanhe páginas de entidades de apoio, participe de eventos e adquira conhecimento neste universo. Procure um mentor, alguém com mais experiência que pode apoiar você nas dúvidas. Busque suas habilidades para pensar na oportunidade de negócios, mas considere que o seu negócio tem que resolver problemas reais da sociedade. Principalmente: comece pequeno e teste o modelo. Não basta pesquisa de mercado, é importante testar um protótipo com clientes reais, investindo o mínimo possível nesta fase de teste.

 

O Brasil é um país favorável para o empreendedorismo feminino? 

Somos um pais com maior quantidade de mulheres empreendendo (segundo a pesquisa GEM), mas como ambiente empreendedor o Brasil ainda tem muito a desenvolver, não temos políticas de apoio as empreendedoras, elas tem menos acesso a crédito e faltam programas de capacitação . Mas mesmo neste ambiente as mulheres continuam empreendendo mais e buscando cada vez mais inovação.

 

Hoje você coordena a maior rede de apoio ao empreendedorismo feminino do Brasil com mais de 300 mil participantes. O que lhe motivou a criar a rede e o que mais te surpreende nesta trajetória?

Eu abri meu primeiro negócio em 2009 quando empreender não era tão popular como hoje, não existiam tantas entidades. Tive muitas dificuldades e através destas dificuldades percebi que outras mulheres estavam passando pela mesma dificuldade. Na mesma época, fui selecionada para participar do programa de capacitação da Goldman Sachs e FGV “10.000 mulheres” e tive a ideia de compartilhar o conhecimento com outras mulheres. Foi a partir daí que criei a RME. Me surpreendi, pois não esperava tantas mulheres em tão pouco tempo.

 

Quando se fala em mulher, o que mais te angustia? 

Faltam de redes de apoio para as mulheres como creches, escolinhas acessíveis para as crianças, e apoio dos companheiros, elas ainda são responsáveis por todo serviço doméstico e isto sobrecarrega as mulheres. Além disso, acesso a crédito é ainda um desafio, elas têm menos crédito do que os homens, e os negócios para crescer dependem muito de recursos.

 

FRASE

 

“Empreender não é trabalhar menos, mas trabalhar de forma mais livre com dependência de horário”

 

Quem é Ana Fontes?

Alagoana, de Igreja Nova, Ana chegou em São Paulo, mais precisamente em Diadema, na década de 1970 com sua mãe e os cinco irmãos. O pai já estava na cidade. Veio antes com dois dos irmãos mais velhos. Cresceu ali e teve seu primeiro emprego com registro em carteira aos 14 anos. Estudou em escolas públicas e formou-se em Publicidade na Anhembi. Para pagar a faculdade, vendia doces. Após 28 anos trabalhando no mundo corporativo, pediu demissão e começou a empreender. Em 2010, após participar do programa 10.000 Mulheres da FGV/Goldman Sachs, fundou a Rede Mulher Empreendedora (RME).

COMENTÁRIOS

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Onde comprar