Suicídio, substantivo comum

No Brasil, o Centro de Valorização da Vida (CVV), está disponível 24 horas por dia. Precisou de auxílio? Acesse www.cvv.org.br, ligue 188 ou 141 em diversas regiões do país

Texto Rejane Martins Pires
Fotos Fábio Conterno

Se você, algum dia já teve algum pensamento suicida, não se recrimine. Milhares de pessoas pensam isso todos os dias. Algumas só pensam. Outras tantas se matam. E outras tantas fingem que está tudo bem. Ok. Suicídio é assunto difícil. Complexo. Dolorido. Ninguém quer falar até que, de repente, aquela pessoa “querida e pacata”, sem nenhum motivo aparente, vira notícia de jornal.

E aí o assunto viraliza, influenciando outros atos suicidas. É o chamado suicídio por contágio ou Efeito Werther referindo-se ao personagem da obra homônima de Goethe, publicada em 1774, em que o protagonista se suicida por conta de um amor frustrado e isso gera uma onda de suicídios.

Traduzindo, é o tipo de suicídio por imitação, que ocorre após a divulgação ou massificação de notícias simplistas e sensacionalistas. “É contraindicado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) noticiar o suicídio dando foco aos meios letais ou ênfase em elementos que associem o ato suicida com algum tipo de glamour ou banalização no sentido da morte”, explica Giovana Kreuz, doutora em Psicologia Clínica e também voluntária do Centro de Valorização da Vida (CVV) em Maringá.

Isso não significa, porém, que as noticias devem ser escondidas ou negligenciadas. “Pelo contrário, devemos nos atentar ao impacto que as notícias mal conduzidas promovem e, apresentar dados consistentes e de qualidade sobre o tema”, reforça.

Não transformar o assunto em produto comercial é o primeiro passo. O segundo é informar alternativas de acesso a serviços e profissionais de saúde e meios de ajuda e prevenção, como o CVV.  “Cabe à mídia, portanto, avaliar a forma e suas consequências ao divulgar um suicídio, tendo a consciência de que podem ser promotores de efeitos devastadores ou efeitos reconstrutores”, salienta.

Tratar o tema com máximo cuidado e respeito, explica, é também pensar de fato nas pessoas que estão vulneráveis, seja porque apresentam comportamentos suicidas ou por estarem impactadas ou enlutadas por perderem seus entes. “Durante o evento do Setembro Amarelo, uma familiar enlutada pelo suicídio do esposo nos relatou o drama de ter a foto da cena estampada nas mídias sociais e a invasão da imprensa no momento em que o corpo estava no IML, o que causou um alvoroço no funeral, impedindo que a família velasse seu ente com a devida intimidade”, conta.

Tabu e despreparo

Se a cada 45 minutos, um brasileiro tira a própria vida, por que tanto estigma? A resposta pode estar no despreparo. E não apenas da mídia, mas também dos profissionais da saúde e da educação. “É necessária uma capacitação contínua com muito embasamento para ampliar, aprofundar e humanizar a conduta, precisamos repensar a nossa prática profissional o tempo todo”, explica Giovana.

Em seu dia a dia no consultório, a psicóloga também escuta histórias de pessoas que sobrevivem às tentativas de suicídio e foram hostilizadas pelos profissionais que as atenderam. “O manejo ainda é realizado de maneira meramente técnica e pouco vincular, deixando um abismo entre a emergência e o acompanhamento psicológico e/ou psiquiátrico posterior, isso quando de fato há continuidade”.

“Palestrinha” não resolve

Colocar o dedo na ferida, para Giovana Kreuz, é ir além das “palestrinhas”. Não basta despertar o tema. É preciso aprofundar com seriedade e comprometimento, dando suporte quando surgem demandas e dúvidas e, contando com serviços de saúde mental efetivos quando surge a necessidade de encaminhamento. Aí vem o trabalho duro. E há, segundo ela, uma confusão entre boa vontade e habilitação para falar do tema.

Para uma discussão ética e efetiva, deve-se levar em consideração aspectos como experiência, aperfeiçoamento, disponibilidade de tempo, organização de um trabalho coordenado e profundo conhecimento sobre a prevenção e pósvenção do suicídio. Sem falar, é claro, de uma autoavaliação acerca das condições emocionais e de formação do profissional que se dispõe a desenvolver este trabalho.

Escola

Frequentemente a escola acaba sendo tomada como o único espaço preventivo reconhecido. Mas é um equívoco, pois toda instituição pode ser pensada como um espaço de prevenção, incluindo local de trabalho, escola, hospital, família. Certamente a escola um papel primordial na percepção, escuta e acolhimento ao sofrimento de seus alunos, mas nem sempre está de fato preparada para tal tarefa.

Giovana tem acompanhado vários episódios desastrosos onde escolas (e outras entidades) querem abordar o tema, mas não seguem as diretrizes da OMS e não dominam em profundidade, assim, acabam distorcendo o foco e misturando religião, rigidez moral, senso comum. “E, infelizmente, sendo muito mais danosos quando apenas intencionavam ser preventivos. Por isso temos que instrumentalizar as instituições, fornecer bases sólidas para abordarem o tema com segurança e responsabilidade”.

 

FALA GIOVANA!

“Não é falar de qualquer jeito, mas abordar o tema de maneira cuidadosa. Quem sofre precisa ter acesso à uma escuta qualificada para legitimar o próprio sofrimento.”

 

Suicídio é passível de prevenção?

Sim, a OMS aponta que 90% dos suicídios são eventos que podem ser prevenidos. No entanto, o tabu que envolve o comportamento suicida, assim como a dificuldade em buscar ajuda, a falta de rede efetiva de cuidados em saúde mental, a falta de conhecimento e de atenção sobre o assunto por parte de um número significativo de profissionais de saúde e a ideia errônea de que o comportamento suicida não é um evento frequente, impõem barreiras para a prevenção.

A saúde mental, de forma geral, está sendo negligenciada?

A maneira como as pessoas com transtornos mentais são rotuladas e os preconceitos que enfrentam são fatores que contribuem para a formação de um estigma em torno da doença mental e do comportamento suicida, assim, as pessoas são levadas a se sentirem envergonhadas, excluídas e discriminadas – temendo expor o que sentem. Quando finalmente buscam ajuda, muitas vezes enfrentam o descaso da comunidade, a falta de estrutura, a superlotação dos serviços de saúde, a falta de preparo para o manejo diante do comportamento suicida e situações de crise, a falta de orientação aprofundada – piorando a adesão às propostas de tratamento e cuidados pelo próprio paciente e sua família.

Afinal, porque tanto tabu?

Falar sobre suicídio já foi considerado algo muito perigoso, era difundida a noção de que tocar no assunto poderia causar mais casos ou suscitar este desejo nas pessoas. Hoje, após muitas pesquisas, sabe-se que falar é a melhor alternativa para romper o tabu. No entanto, sempre salientamos que não é “falar de qualquer jeito”, mas abordar o tema de maneira cuidadosa, dando espaço para quem sofre ter na fala um caminho para ser, de fato, escutado. É o acesso à informação de qualidade, ao tratamento especializado e à escuta qualificada que podem legitimar, verdadeiramente, o sofrimento.

 

CORAGEM PARA FALAR

 

Ela pensou em suicídio

Ana Caroline Comin tem 24 anos. É estudante de Medicina na Universidade Estadual do Oeste (Unioeste). Desde os 11 anos de idade ela pensa em suicídio. Nunca chegou ao ato extremo por dó da família. Também nunca falou. O silêncio escondia um desejo obscuro de “desistir de tudo”. Aluna aplicada, passou numa faculdade particular em Santa Catarina após dois anos de cursinho.

Mas seu sonho era Unioeste. Continuou estudando e na véspera do concurso, passou mal. Não conseguiu fazer a prova. Numa nova tentativa, passou em última chamada. “O primeiro ano foi horrível. Eu entrei em sala 15 dias após o início das aulas, não tinha amigos, as provas já estavam marcadas. Era tudo novo. Fiquei desesperada”.

O alento veio depois de uma aula de psicologia médica em que a professora falou sobre ansiedade e a necessidade de terapia. “Fui numa psicóloga e ela disse que eu estava com depressão profunda”, conta. A ajuda especializada foi fundamental. “Minha psiquiatra sugeriu que eu fizesse as coisas no meu tempo, deixasse algumas matérias para trás, mas eu era muito exigente comigo mesma e não admitia isso. Em 2014, desisti de duas matérias e fui levando. Peguei muito atestado porque tinha fobia social e na faculdade isso piorou”.

Num ritmo de estudo de 12 horas por dia, equilibrando mais vida social, atividade física, terapia e tratamento, Ana resistiu. Está indo para o terceiro ano da faculdade. “Há uma pressão ingrata quando se fala em ser médico. Você não pode falhar. Se um médico erra, uma pessoa pode morrer. É uma carga psicóloga bem grande”.

 

FALA ANA!

“É importante ter os diagnósticos certos e ser tratada corretamente”

Sofreu algum tipo de preconceito em função da depressão?

Sim. Eu sempre falo que as pessoas têm que olhar a depressão de outra forma. No primeiro ano de faculdade, uma colega disse que eu não merecia estar ali, que alguém aproveitaria melhor minha vaga e que depressão não é desculpa para não estudar. Comecei a refletir sobre o assunto e decidi não me esconder. Não era justo.

A coragem para falar sobre suicídio e depressão veio daí?

Em parte sim. Como eu me abri, outros colegas vieram me pedir ajuda e indicação de psicólogo e psiquiatra. Por mais que eu ainda tenha medo de julgamentos externos, eu não me escondo mais porque sei que posso ajudar alguém. E tem muita gente com problema.

O que foi mais dolorido nesse processo?

Em relação a mim, o mais dolorido é que eu perdi a noção de quem eu era. Eu era uma pessoa animada e estudiosa e não queria mais estudar, pensei em desistir. Desistir da vida.

A faculdade se preocupa com a saúde mental dos alunos?

Até existe um serviço de atendimento na Unioeste, mas ninguém fala disso. Você tem que ir atrás. No meu caso, procurei ajuda fora. Meus pais perceberam que havia algo errado, que eu não estava bem, pois fiquei até duas semanas sem ir na aula, não queria tomar banho, não queria comer… Eu fico pensando se meus pais não tivessem condição de pagar uma psicóloga como que eu ia fazer. Só não parei tudo porque recebi ajuda.

Como suavizar o ensino da Medicina?

Em termos de conteúdo não há muito o que fazer. Porém, em termos de método de ensino, sim. Nosso método é do século passado. Em relação à parte psicológica, tem muito a fazer. Nós, estudantes, precisamos nos entender como seres humanos e aprender a trabalhar com o erro. Saber que não somos perfeitos. Todo mundo erra, acontece. Às vezes somos tão cobrados que a gente esquece quem é e tudo o que conseguiu até aqui.

 

O lado sombrio das
faculdades de Medicina

O tema do suicídio entre estudantes de Medicina tem sido recorrente e ganhou mais atenção nos últimos meses após os episódios de pelo menos seis tentativas de suicídio entre alunos da Universidade de São Paulo (USP). De acordo com estudos da American Medical Association, realizado em 43 países, estudantes de Medicina tem cinco vezes mais chances de apresentarem tendências suicidas e sintomas depressivos.

Entre as causas para o alto nível de problemas de saúde mental, segundo a médica psiquiatra Julia Farage Saito, estão a perda da liberdade pessoal, a excessiva pressão acadêmica e a percepção da desumanização. “Tenho atendido jovens realmente doentes, lutando para resistir à vontade de se matar e muitos confusos”, conta.

Tudo isso por conta de um ensino que, segundo ela, “tratora” emoções e passa por cima de qualquer necessidade emocional ou fisiológica. “Não se pode ter sono, fome, cansaço, dor, medo, tristeza, desespero. Não, não se pode. Não se pode errar”, diz Julia, que no artigo “O lado sombrio das faculdades de Medicina”, fez uma crítica à falta de flexibilidade das cobranças acadêmicas após a morte de uma estudante vítima de uma explosão no prédio em que morava. Colegas que vivenciaram a cena, o trauma e a dor não foram poupados das provas. “Como esperar uma medicina mais humana se formamos médicos que são ensinados a se desrespeitarem e a se negligenciarem?”, questiona.

Lamentavelmente, continua, as faculdades destruíram o que havia de melhor nos projetos de médicos: o interesse sincero pelo outro e pela sua dor. Diante da frieza e rigidez das faculdades de medicina, os remédios anestesiam enquanto a pessoa se torna médica. “Uma vez médicos, eles já aprenderam a não sentir, a se negligenciar e a se desrespeitar. E trabalham. É só o que conseguem fazer. Desculpe dizer, mas trabalham mal. São incapazes de encontrar a dor do outro, porque fogem da sua própria dor. Examinam, pedem exames, analisam exames, prescrevem remédios, mas não se permitem o encontro que cura”

 

COM A PALAVRA, A FACULDADE

Para o coordenador do curso de Medicina da Faculdade Assis Gurgacz (FAG), Rui Almeida, é inegável que a graduação é conhecida pela exaustão, pois exige um aprendizado intenso em um curto período de tempo. “Para amenizar só se o curso passasse de seis para oito anos e isso ninguém quer”, diz. “O grande problema é que nós não formamos especialistas, nós formamos generalistas e existem muitas exigências que englobam esta formação”.

Em dez anos de curso, segundo o coordenador, a FAG teve um caso de suicídio. “Era um rapaz que tinha muitos problemas e ninguém sabia. A turma ficou muito abalada na época e fizemos um trabalho de acompanhamento psicológico”. Ele ressalta que a faculdade disponibiliza uma estrutura para aconselhar seus alunos. “Mas a pessoa precisa procurar ajuda e querer ser ajudada”, afirma, lembrando que o alto consumo de bebidas alcoólicas e drogas entre os estudantes de modo geral é preocupante e foge do controle da faculdade.

 

 

MOTIVOS PARA NÃO DESISTIR

“A formação não é nem um pouco humana, é muito mecânica. Significa você dormir pouco, comer mal, não ter vida social, destruir sua saúde. Eu fiz quatro anos de cursinho. Devo ter feito mais de 70 vestibulares. Foi uma longa caminhada chegar até aqui e está sendo dez vezes mais difícil chegar até o fim. Medicina sempre foi um sonho, porém a pressão vem de todos os lados. Além da faculdade, eu me cobro muito, pois meus pais estão se matando de trabalhar para pagar o curso e todos os gastos aqui. Aí você estuda, estuda, vai mal das provas e desaba. Na minha sala, de 40 alunos, uns dez já desenvolveram depressão forte. A maioria mascara. Já ajudei muitos colegas, alguns em tratamento, outros entrando na crise, porque chega uma hora que você não dá mais conta, quer desistir de tudo. Com ajuda psiquiátrica, aprendi a levar as coisas no meu tempo, pois eu quero terminar este curso, eu quero ser médica”.

A.T., estudante do segundo ano de Medicina

“Fiz uns 40 vestibulares até passar. A pressão para quem escolhe Medicina começa no cursinho. Aí eu passei e vim morar aqui, 800 km longe de casa. Nos primeiros dois meses, ligava chorando todos os dias para minha mãe. Só não desisti porque é muito difícil passar e os gastos são imensos. Não tem como fazer faculdade de Medicina e não experimentar esta angústia. De 54 alunos na minha turma, mais da metade já procurou ajuda com psicólogo. Alguns, pensando em suicídio mesmo. Eu não admitia ficar de exame e me preocupava muito em chegar no fim da faculdade e não saber tudo. Depois de todo este sofrimento, aprendi a não me preocupar tanto com isso. Tudo tem o momento certo e a sua vida é muito mais valiosa que uma nota baixa, que um exame”.

T.L., estudante do terceiro ano de Medicina

 

Saúde mental dos alunos
precisa ser valorizada

O comportamento suicida é um fenômeno complexo, resultado de uma equação composta por inúmeras variáveis genéticas, psicológicas, sociais e culturais.  É considerado um grave problema de saúde pública, sendo responsável por cerca de um milhão de mortes por ano em todo o mundo. Profissionais da saúde não estão imunes a doenças e também precisam de ajuda. “Perceber a mudança negativa no comportamento e buscar ajuda é o primeiro passo para a melhora”, salienta a psicóloga Ana Karoline Gomes Gurtat.

Em sua experiência clínica, os alunos que a procuram geralmente chegam com a queixa de não organização de estudos, auto cobrança e ansiedade. Porém, no decorrer do processo terapêutico, surgem os problemas de relacionamento interpessoal, familiares, de autoconhecimento, humor deprimido e falta de habilidade social. Uma das cobranças mais latentes, além de todas as exigências que envolvem o curso de Medicina, como carga horária, conteúdo de alta complexidade, calendário implacável de provas e trabalhos, é a questão financeira. “A cobrança que o próprio aluno coloca em si, muitas vezes por estar longe de casa e os pais terem custos altos, afeta diretamente o seu emocional”.

O CVV — Centro de Valorização da Vida é uma associação civil sem fins lucrativos, filantrópica, que presta serviço voluntário e gratuito de apoio emocional com abordagem humanitária e prevenção do suicídio. Precisando de ajuda? Ligue 141 ou 188.

Você pode procurar ou indicar ajuda especializada nas Unidades Básicas de Saúde, nas clínicas-escola das universidades, nos serviços de saúde mental de sua cidade.

COMENTÁRIOS

  1. rose disse:

    é bem.isso. infelizmente o processo de humanização é muito deficitário. são alunos sendo ensinados à apenas salvar, como.se fossem heróis. a valorização da vida é deixada de lado.

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