Qual é o seu código?

ENTREVISTA – José Luiz Tejon

Antes de ler esta entrevista, faça um exercício. Primeiro, olhe-se no espelho e reflita sobre quem você é. Depois, faça uma rápida pesquisa no Google com o nome “José Luiz Tejon Megido”. É bem provável que você se depare com dezenas de páginas sobre este personagem. Escolha qualquer uma. Abra e leia. Feche os olhos e imagine-se na mesma situação.

Não se surpreenda se o coração apertou. Pois bem. Este é Tejon, o menino que teve o rosto queimado aos quatro anos de idade, e, hoje, aos 65, é umas das maiores autoridades nas áreas de gestão de vendas, marketing em agronegócio, liderança, motivação e superação humana. Isso sem falar nos 33 livros publicados e em sua experiência como professor e palestrante mundo afora. Mas, a ideia aqui não é falar de seu extenso currículo.

Tejon é daquelas pessoas que encantam pela vivência, pela boa palavra, pelo olhar sensível e pela coragem descomunal. Coragem que aprendeu com os pais, “prestando atenção nas batatas”. Isso mesmo. Esta metáfora foi a fórmula que sua mãe adotiva usou para que, aos sete anos de idade, com o rosto queimado, o levasse à feira livre e fizesse com que  prestasse atenção na escolha de batatas, e não no burburinho da feira, já que ele, em função do rosto deformado, era o assunto.

Este, outros gestos mágicos de seus pais, nunca lhe permitiram vergonha tampouco vitimização. Por isso, Tejon é Tejon. Nesta entrevista, feita durante sua visita a Cascavel para a Convenção do Moinho Iguaçu, ele falou à Aldeia sobre códigos, valores e outras inspirações terrenas!

Você costuma dizer que cada pessoa precisa ter um código. Que código é este?

São alguns valores nos quais você vai testando ao longo da vida. Leva um tempo para descobrir. Parece que somos como um cofre e vamos encontrar este código depois de muitas experiências e enfrentamentos. O valor da compreensão da cooperação é exemplo. É impossível você progredir sem a arte da cooperação. É um fundamento simples, não é nada de outro mundo, mas que só se compreende no exercício da cooperação. Compreender a lei de causa e efeito é outra coisa importantíssima. Aquilo que a gente faz ou deixa de fazer tem sempre um reflexo, um retorno. Tem muitas brigas que não vale a pena entrar (são tolas), mas tem algumas que valem a vida.

Quais outros valores você destacaria?

O trabalho é sagrado. A profundidade com que você realiza o seu trabalho é fundamento. Não há chance de se encontrar sem compreender o seu dom e aplicá-lo ao trabalho. Outra coisa vital é o amor. O amor é o olhar que você tem para as coisas. Um exemplo: se você ama o Brasil você o vê de um jeito e compreende que quem ama cria, não espera pelas coisas criadas. Amor está ligado à capacidade da transformação no seu entorno, seja de uma causa ou de pessoas. Este código é um aprendizado que a vida vai revelando. Somos resultado das pessoas que confiamos, prestamos atenção e observamos.

Quando o assunto é cooperação, estamos fazendo uma boa caminhada?

Quando a gente vê o movimento cooperativista brasileiro creio que sim. Como todos os movimentos, há momentos mais críticos, coisas positivas e negativas, mas o saldo positivo do cooperativismo brasileiro é extraordinário. O cooperativismo tem uma importância gigantesca para o PIB do país e para o agronegócio brasileiro, mas isso precisa ser revelado e mostrado para a sociedade. O Paraná é um exemplo, onde tem uma cooperativa bem liderada, toda a sociedade ganha. Mas precisamos de muitos mais. O cooperativismo precisa dominar, ser praticamente um plano de Estado.

Hoje, fala-se muito na ausência de líderes. Qual a sua opinião?

Os novos líderes vão surgir à medida que os antigos morrem. Estamos num ciclo de muita liderança antiga e os líderes novos estão com dificuldade de surgir. Eles existem, só precisam de visibilidade. Precisamos mostrar os novos líderes. Em cinco, seis ou sete anos eles surgirão com notoriedade. Isso vai fazer toda a diferença.

Você é um entusiasta do Brasil. O que te faz acreditar nisso?

O Brasil é o melhor país do mundo, não tem igual. Só administrar ele um pouco melhor. E não dá para esperar pelo governo também. Isso é outra bobagem. A sociedade civil organizada precisa se apresentar e montar programas e projetos. Temos boas estruturas que podem fazer isso, como as confederações empresariais, em que o próprio cooperativismo está incluído. Estas confederações poderiam ter um projeto, pelo menos econômico, para o futuro do país e persegui-lo e vigiá-lo, fosse quem fosse o presidente, senador, o deputado. O governo tem que ser mínimo, mas para o governo ser mínimo a sociedade tem que ser grande. Aí vem a educação e as novas lideranças, pessoas que acreditam nesta possibilidade de futuro.

Agora, voltando à pessoa do Tejon. Você é um exemplo de quem não amargou com o sofrimento. Qual é o segredo?

O segredo é uma mãe e um pai. No meu caso, meus pais adotivos não permitiam a vitimização. E aqui vai um fundamento para o código que falo. Se você se vitimiza, você está perdido. A vitimização é pior mal que o ser humano pode fazer a ele a quem vive com ele. Então, a não-vitimização significa a compreensão de dadas as dificuldades e a sua missão é realizar e criar. As grandes dificuldades são espetaculares. Eles nos transformam em seres muito melhores. Quem não passa por dificuldade será sempre uma pessoa que apenas sobreviveu. Então, viva a grande dificuldade. Ela é ótima.

Qual é sua missão hoje?

Eu sou um exemplo de quem não tinha nada para dar certo, não era nem para ter sobrevivido e acabei tendo uma carreira bonita e de muito sucesso. Eu sou um exemplo e estou mostrando para as pessoas que é possível ser uma grande pessoa mesmo não tendo nada no início para ter. Esta é minha missão.

Qual é o peso de uma história para você?

É contá-la. Se você não a conta, você está escondendo algo que o mundo te preparou para fazer. Você tem que contar, escrever, falar, andar por aí, deixar uma memória. Veja só, hoje estou aqui em Cascavel, aliás, uma cidade extraordinária que conheci no final da década de 1970 quando trabalhava na Jacto, e agora retorno para contar histórias, para despertar nas pessoas algum sentimento, algum despertar…

O que te preocupa?

A educação. Refiro-me a uma base da pirâmide gigantesca (10 milhões de pessoas) formada por jovens conectados e provocados para serem bem sucedidos, famosos e ricos. Ninguém mais nasce para ser pobre.  Até aí tudo bem. Mas qual o meio para isso? Volto à ideia do cooperativismo.  Não vejo possibilidade de dignidade sem o cooperativismo. O cooperativismo é o principal meio para permitir que este “paraíso” possa ser mais viável.

Falando em paraíso, qual é a sua visão de paraíso?

O paraíso é o que te constrói. A Terra não é um paraíso. A terra é um lugar de dificuldade e de provações. O paraíso é sair da Terra com a consciência de ter trabalhado para que ela fosse melhor de quando você entrou.

E o que lhe inspira na Terra?

O que me inspira são pessoas como você, interessadas nestas coisas íntimas e fazendo um trabalho. Estar aqui, conversando, é uma inspiração. Viver o momento presente, ser intenso com as pessoas que encontramos ao longo da vida e, principalmente, não esquecer cada momento.

FRASES

Se você se vitimiza, você está perdido. A vitimização é pior mal que o ser humano pode fazer a ele a quem vive com ele

As grandes dificuldades são espetaculares. Eles nos transformam em seres muito melhores. Então, viva a grande dificuldade. Ela é ótima

Não vejo possibilidade de dignidade sem o cooperativismo. O cooperativismo é o principal meio para permitir que este “paraíso” possa ser mais viável

O governo tem que ser mínimo, mas para o governo ser mínimo a sociedade tem que ser grande. Aí vem a educação

Legenda:

Tejon: “A Terra não é um paraíso. A terra é um lugar de dificuldade e de provações”

COMENTÁRIOS

  1. Carmela disse:

    Tejon é meu amigo meu irmão mas cada vez que leio qualquer entrevista ou algo sobre o que escreve é sempre rico me faz refletir sentir e entrar em contato com valores as vezes adormecidos engolidos pelo dia dia .

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