A poética de Budke

O empresário Frodoaldo Budke começou a fotografar aves em 2013 por pura paixão e, hoje, está entre os melhores fotógrafos especializados do País. Suas fotos impressionam pela sensibilidade e composição muito bem planejada

“Por viver muitos anos dentro do mato moda ave o menino pegou um olhar de pássaro. Contraiu visão Fontana por forma que ele enxergava as coisas por igual como os pássaros enxergam”. O poema de Manoel de Barros sintetiza de forma perfeita a alma do empresário Frodoaldo Budke, que há pouco mais de cinco anos começou a fotografar aves e hoje está entre os melhores do país.

Detalhe: ele fotografa por hobby. Paixão mesmo.

Nascido e criado junto à natureza, num sítio em Lindoeste, Budke sempre se impressionou com a beleza intangível das aves. Sim, é de uma geração que matou passarinhos. Porém, quando tomou consciência, resignou-se a tal ponto de transformar a captura em arte. Ao todo, já fotografou mais de 300 espécies no Brasil e América Latina. Integrante da Wiki Aves (enciclopédia das aves), ele já fez “loucuras” para capturar boas imagens.

Só para se ter uma ideia, na última viagem, foram 8 mil quilômetros até a cidade de Barbalha, no sul do Ceará, somente para fotografar o “soldadinho-do-araripe”, única ave endêmica (exclusiva) daquele Estado, descoberta em 1996. Para fotografá-la, preparou todo um cenário, como faz de costume para ter um fundo uniforme, aliás, a sua marca registrada. Hospedado num sítio, subiu a montanha e viu a ave, muito arisca por sinal.

A composição de cena incluiu alguns truques, aprendidos na infância. Amarrou uma pedra na ponta de um cipó sobre uma palmeira, puxando-a cuidadosamente na mesma direção da ave. Feito isso, bastou colocar o gravador embaixo do galho com o “chama” (som) e esperar para o clique. Depois de quatro horas de muita paciência, solenemente, o “soldadinho” bateu continência para a mira de Budke. “Voltei três dias depois para fazer outros registros, mas acabei optando por esta foto”, diz.

Além da técnica, há outros dois ingredientes determinantes: o estudo do comportamento da ave e o respeito ao seu espaço. “Entra aí a sensibilidade para sentir até onde posso avançar. Dependendo da minha atitude, a ave pode abandonar o ninho. A natureza nos ensina muita coisa, uma delas é equilíbrio e isso serve para todas as áreas e circunstâncias da vida”, afirma.

 

Primeiro registro

Se o martim-pescador era a ave que mais lhe impressionava na infância, a primeira foto foi de um canário-da-terra, em Dois Vizinhos, no Sudoeste do Paraná. Foi a partir desta ave tão comum que ele percebeu que fotografia não era para amadores. Depois de correr o dia inteiro atrás do passarinho, com uma lente de curta distância, resolveu investir em equipamentos melhores.

A primeira viagem, já com uma lente de maior alcance, foi para o Mato Grosso do Sul. Para o interior da Argentina fez duas incursões e, no Peru, desceu até o Parque Nacional del Manu em busca do galo-da-serra-andino. Nem toda viagem é bem-sucedida. Às vezes, quatro ou cinco dias na mata rendem apenas uma foto boa – e nem sempre da ave que se está buscando. “Não saí com a foto que queria, mas saí com a de outras aves que aqui no Brasil só ocorrem em Roraima. Nesta viagem, consegui fotos de excelência”, afirma.

O termo “excelência” para o empresário significa uma foto que revele pequenos detalhes como textura e coloração de pelos, peles e plumagens. Isso não é para qualquer um. Há pássaros, como o tiê-sangue em que a lente não consegue fazer o registro preciso da cor. “Até tenho uma foto dele, mas não é uma foto que a ave merece”.

Outra ave na mira de Budke é o bicudinho, muito visada pelos gaioleiros em função do canto. A saíra-pintor, com ocorrência no litoral de Pernambuco e Alagoas, também está na lista. “Minha próxima viagem será para o Monte Roraima e a viagem dos sonhos é para o Quênia fotografar os abelharucos e outras espécies da África”, diz. A julgar pelo número de espécies no mundo, aproximadamente 10.500, Budke terá muitas descobertas ainda. “A fotografia de aves me trouxe paz de espírito. Vou à exaustão por uma boa foto e o trabalho não se encerra nela, continua depois no tratamento, não para modificar, mas para otimizar as características da ave”, reforça.

 

 

Sporophilas em livro

O trabalho do empresário é tão rico que em breve lançará, em conjunto com dois biólogos, um livro dedicado somente ao gênero dos Sporophilas, que literalmente significa comedor de sementes e compreende atualmente 38 espécies. O livro, além de ser uma rica fonte de pesquisa, é um alerta para a preservação deste e de outros gêneros. Outro projeto em andamento é um livro-arte como fotos exclusivas.

Frase

“Eu lamento que ainda existam pessoas com espírito predador, seja matando ou engaiolando os pássaros”

FOTOS FRODOALDO BUDKE

Pato mergulhão, uma das aves mais ameaçadas de extinção no mundo. Estimativas de que existam apenas 250 indivíduos

Soldadinho-do-araripe: avê endêmica da Chapada do Araripe no Ceará

Sanhaçu, ave comum valorizada pelo olhar fotográfico de Budke

Casal de periquitos-rei em momento “romântico”

COMENTÁRIOS

  1. Alberto Jorge Bittencourt disse:

    Moro em Tibagi e conheço as fotos do Frodoaldo do wikiaves. Estou embriagado nesse saudável hábito de fotografar pássaros também. E fico “ouriçado” quando chegam os finais de semana para enveredar pro mato com minha câmara. No wikiaves, talentos como o Frodoaldo são poucos. Mutios colegas do site vivem em busca de números e não se importam tanto com a qualidade dos registros. Mas o fato é que esse hobby e essa possibilidade de mostrar ao mundo as imagens feitas é extremamente agradável a alma. Que o Frodo tenha muitos caminhos e aves pela frente nesse divertido brinquedo!

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