O novo plano do Liderança

Dois meses depois de entrar com pedido de recuperação judicial, inclusive já deferido pelo judiciário, o Atacado Liderança aposta na recuperação da economia e num novo modelo de gestão para quitar dívidas, atrair clientes e recuperar o faturamento

Texto Rejane Martins Pires
Fotos Fábio Conterno

Quando o Atacado Liderança entrou com pedido de recuperação judicial em junho de 2017, pegou muita gente de surpresa. A começar pela história. São 35 anos em Cascavel. Soma-se a isso o fato de o Atacado recém ter feito um investimento altíssimo na nova sede – às margens da BR 277 – prevendo quadruplicar o faturamento. Com a crise, a retração da economia e a redução do poder de compras, o primeiro corte, é claro, foi no vestuário.

Sob qualquer ângulo que se analisar, a situação é complexa. Tanto pelos valores envolvidos quanto pela trajetória do Liderança, único atacado da região que apostou no formato de “shopping”, e hoje apresenta um retrato fiel dos altos e baixos do setor.

O empresário Beto Casagrande, um dos responsáveis por resolver esse impasse, garante que a empresa tem condições de sair dessa situação, pois é uma empresa com mais de 35 anos de história e com uma estrutura muito competitiva, pois é o único Shopping Atacadista do setor na região. Porém, em 55 anos de vida, nunca viveu um momento tão delicado. “Nós já passamos por diversos períodos críticos. Teve a crise do Plano Sarney, Plano Bresser, Plano Collor, Plano Cruzado, enfim, diversos. Todos passaram, com dificuldade, mas passaram”.

No auge da empresa, há pouco mais de quatro anos, o faturamento despencou 50%, quando se projetava o contrário, um crescimento de 16%. Concorrendo com grandes centros atacadistas, como Maringá e Cianorte, chegou a ter mais de 400 funcionários diretos. Atualmente, são 110 funcionários diretos e 250 indiretos.

Vale lembrar que na esteira da queda de vendas ao varejo, os lojistas sumiram e, se não fosse a honestidade da empresa, que apesar das dificuldades manteve-se otimista e sem atraso no pagamento de salários e benefícios, o desfecho seria ainda pior. “Ninguém tem interesse que o Liderança pare suas atividades, pois a vinda de compristas é também de grande importância para Cascavel e região, já que muitos aproveitam a vinda para fazer exames, consultas medicas e compras em outros estabelecimentos. Estamos trabalhando muito,  e cada vez mais empenhados em sair deste momento difícil”.

Uma das estratégias já foi adotada. Mudança na gestão. A outra é conquistar a confiança dos compristas, haja vista que recuperação judicial não é falência. “É um instrumento legal permitindo que empresas renegociem dívidas a partir da apresentação de um plano de negócios. Exige, entretanto, atenção ainda maior a aspectos de gestão. É isso que estamos fazendo”, acrescenta Beto.

Há de se ressaltar que o pedido de recuperação não é uma exclusividade do Atacado Liderança; gigantes do setor de grandes regiões de São Paulo, Santa Catarina, Maringá e Cianorte, também pediram. “Além da retração do mercado, as altas cargas tributárias contribuem para o arrocho”. Agora, ao mesmo tempo em que aposta na recuperação da demanda, o empresário defende uma reforma estrutural no país, principalmente política, tributária e trabalhista.

 

Estatisticamente, empresas que pedem recuperação judicial têm pouca sobrevida. Como pretende sair dessa?

Trabalhando. Como todo brasileiro, trabalhando dia após dia, mais ainda do que antes. Agora teremos um fôlego para nos reestruturar. Estamos acertando alguns pontos, melhorando a gestão, diminuindo gastos. De resto, quanto a essa estatística, ao se entender melhor as premissas das pesquisas, se compreenderá que grande parte daquelas empresas que não sobrevivem, não utilizam o procedimento para efetivamente se reestruturarem operacionalmente, simplesmente o fizeram para renegociar dívidas e evitar a falência, o que não é a motivação do nosso projeto.

 

Quando expira esse prazo?  O juiz já deferiu a nosso favor. Agora, temos sessenta dias para apresentar nosso projeto de reestruturação ao juiz, o qual será deliberado pelo mesmo e por todos os credores em até seis meses. Atualmente, estamos fazendo estudos, simulações e trabalhando na confecção desse plano.

 

Como você tem reagido a essa fase e às críticas?  Ouve-se muitas besteiras, com certeza. O pessoal confunde recuperação judicial com fechamento de portas, o que se justifica na falta de conhecimento e na especulação que um procedimento dessa natureza causa. Entretanto, isso não nos abala e ainda nos fortalece, estamos trabalhando em pleno vapor, só que, é logico, com algumas dificuldades, que teremos de ultrapassar, para as quais nos preparamos.

 

A complexidade não é só em relação aos valores envolvidos, mas a própria história da empresa…  A história é longa, 35 anos. Passamos por muitos momentos difíceis, mas sempre superamos. Esse momento é que culminou com a recuperação judicial, cuja opção foi racional e amplamente estudada, não representando nenhum ato de desespero ou descontrole.

 

O que está sendo mudado internamente na gestão? Contratamos uma equipe boa pra nos auxiliar, pra ajudar na gestão, na parte estrutural, na parte contábil, na parte fiscal. Estamos aqui nesta nova estrutura desde 2013. A perspectiva era outra. Contávamos com um cenário positivo em termos de Brasil, mas isso não aconteceu. Viemos para um prédio quatro vezes maior, esperando um resultado que, infelizmente, não aconteceu do jeito que a gente queria e previa, mas estamos lutando pra que dê certo.

 

Houve um erro nesse processo? Eu não diria que houve um erro. Nós apostamos num país que estagnou no momento do nosso grande investimento. É de se destacar, para comparar, que a crise é estrutural e se deriva do cenário recessivo da economia brasileira, o que pode ser compreendido pela estatística divulgada pela Serasa Experian no sentido de que no ano de 2016 o número de recuperações judiciais aumentou em 44,8% em comparação a 2015, e, em 2015, em comparação a 2014, aumentou em 50% por cento.

 

Quando você se deu conta que teria que recorrer? A gente sempre gostaria que fosse a última coisa a fazer, e foi. Postergamos até que chegou a hora. Consultamos nossa assessoria jurídica, nossas bases, nossos bancos, o débito como um todo. Enfim, estávamos evitando a medida desde quando nosso faturamento se retraiu, porque acreditávamos na retomada do consumo, o que também não ocorreu na velocidade que necessitávamos, e por isso tivemos que agir.

 

Está passando ou o pior está por vir ainda? O pior já passou, muito embora esse projeto de reestruturação econômica da empresa não seja tão fácil. O empreendedorismo no Brasil é um desafio constante, não é fácil manter o bom humor e o otimismo. De qualquer forma, o que muito nos orgulha é que durante todo esse período de dificuldade fizemos o possível para não dispensar tantos funcionários, nem atrasar a folha de pagamento.

 

Em algum momento você pensou em desistir? Jamais, sou resiliente e perseverante. Acredito que recuperar e reestruturar a empresa seja um desafio semelhante aquele que enfrentamos na sua fundação, que deu certo e foi vitoriosa. A única diferença, e que é favorável agora, é que temos um bom nome, credibilidade, reputação e história. E, mais do que isso, tenho a experiência acumulada de 35 anos no ramo, o que não tinha no começo. Eu quero estar vivo ainda pra ver que deu certo.

 

O que o Liderança representa pra você? Praticamente a minha vida. Começamos em 1983, ou seja, a maior parte da minha vida passei aqui, trabalhando.

 

Você sempre foi otimista? Sempre fui. Houve uma época, 12 a 15 anos atrás, a maioria das empresas que mexiam com esse comércio de atacado lá em São Paulo pararam. E eu fui otimista, até porque eu tinha um projeto sólido e sustentável e quis manter, acreditando no potencial da nossa região, do nosso Estado e do setor, é claro. Esse otimismo, no entanto, não é aleatório, ele é um processo crítico e racional estruturado em estudos e avaliações.

 

O pedido de recuperação do atacado foi uma surpresa pra Cascavel, isso teve algum peso pra você? As pessoas mais esclarecidas entendem. Algumas pessoas, inclusive fornecedores, até disseram “não sei por que você não pediu antes”. A gente sempre acha que o mês seguinte, o ano seguinte vai melhorar, não melhorou. Pelo contrário, piorou.

 

Como manter o otimismo num cenário desse? O otimismo, como disse, se sustenta objetivamente no conforto de saber o que estamos fazendo, o que mensuramos através do atingimento das metas de curto, médio e longo prazo que traçamos, as quais fortalecem nossas convicções quando alcançadas. Já a força maior, subjetiva, para todo esse otimismo, vem de Deus, porque ele conhece todo esforço, empenho e dedicação ao Liderança, o que me fortalece especialmente nos momentos de críticas pejorativas, com as quais, infelizmente, temos que conviver. De resto, e isto esse momento permitiu enxergar, contamos com a mais profunda solidariedade, compreensão e dedicação da própria equipe da empresa, dos parceiros, dos fornecedores e de todos aqueles que conhecem a nossa história.

 

Legenda:

Beto Casagrande: recuperação judicial não é exclusividade do Atacado Liderança. Em 2017, grandes empresas do setor têxtil e do vestuário entraram com pedido

 

FRASES                              

 

“O pior já passou, muito embora esse projeto de reestruturação econômica da empresa não seja tão fácil. O empreendedorismo no Brasil é um desafio constante”

 

“Esse otimismo, no entanto, não é aleatório, ele é um processo crítico e racional estruturado em estudos e avaliações”

“Contamos com a mais profunda solidariedade, compreensão e dedicação da própria equipe, dos parceiros, dos fornecedores e de todos que conhecem a nossa história”

 

PARA SABER MAIS

O que é recuperação judicial? A recuperação judicial é uma medida  para evitar a falência de uma empresa. É pedida quando a empresa perde a capacidade de pagar suas dívidas. A recuperação judicial é abordada no capítulo três da lei Lei de Falências e Recuperação de Empresas (LFRE), de 2005.

O que deve constar no plano de recuperação? A empresa e tem que apresentar à Justiça e aos credores um plano de como sairá da atual crise. É um processo baseado na negociação e permite que credores e devedores apresentem as condições que acreditam ser razoáveis. No plano, é analisada toda a parte contábil, de produção, estoque e fluxo de caixa da empresa.

 

COMENTÁRIOS

  1. Alessio disse:

    Sucesso meu amigo Beto!
    Essa crise logo irá passar
    Basta o povo saber votar nas próximas eleições. Abraços.

  2. Catia Rosani de Melo Tonello disse:

    Boa noite sempre acreditei no potencial de vcs são questão de tempo tudo se recupera acredite sucesso abraço

  3. Ieda disse:

    UNIDOS ,SOMOS FORTES…TAMO JUNTO BETO!!!!

  4. IEDA disse:

    UNIDOS ,SOMOS FORTES…TAMO JUNTO BETO!!!

  5. Alfeu Biavati disse:

    Beto. Vai dar todo certo. Boa lá frente.

  6. Amigo disse:

    Isso aí Beto vai dar certo só cuida com quem ajuda a você cuidar da empresa pessoas caloteiras não é bom ter por perto pensa assim pessoas assim não trazem
    Boas energias pensa nisso vai dar você é gente Boa

  7. Roberto Zee Rucci disse:

    Sucesso sempre

  8. Roberto Zee Rucci disse:

    Sucesso sempre.

  9. GIOVANNI FANTIN disse:

    As dificuldades sempre nos fortalece!
    Deus abençoe a todos!

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