Adeus Jeca Tatu!

Roberto Rodrigues, falou com a Aldeia durante sua visita à Univel, onde ministrou aula magna dos cursos de Agronomia, Medicina Veterinária e Administração

Texto Rejane Martins Pires
Fotos Divulgação

Uma das principais lideranças do agronegócio do Brasil, o ex-ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, falou com a Aldeia durante sua visita à Univel, onde ministrou aula magna dos cursos de Agronomia, Medicina Veterinária e Administração. Engenheiro agrônomo e coordenador do Centro de Agronegócios da Fundação Getulio Vargas (FGV), Rodrigues vê com entusiasmo o agronegócio brasileiro. Mas tem suas ressalvas e ponderações, principalmente no que se refere à segurança alimentar e à imagem negativa do agricultor, construída ao longo de séculos.

A ausência de líderes globais interfere na criação de estratégias para um projeto global de segurança alimentar?
Sem dúvida, a ausência de líderes globais interfere numa estratégia de projetos e rumos. A ausência de líderes não permite a ação integrada do interesse global. Trump, por exemplo, está na contramão da história contemporânea. Não temos líderes e, com isso, as ideologias estão começando a surgir mais violentas, mais rigorosas. Segurança alimentar, segurança energética, fome, distribuição de renda inadequada e aquecimento global são questões que estão engrossando no mundo contemporâneo, mas comer todo mundo precisa! E o que há de relevante neste processo é que a ONU, cuja função precípua é defender a paz, percebeu no começo do século 21 que não haverá paz se houver fome.
Estas migrações na Europa são a prova mais concreta disso.

Como estão os debates sobre segurança alimentar?
Em 2000, a ONU disse que em 2050 seremos 9,5 milhões de habitantes no mundo e até lá precisamos aumentar a produção em 70% dos alimentos para que haja paz. Esta visão da ONU, no entanto, começou a ser questionada, pois 50 anos hoje em dia é muito tempo. As tecnologias surgem com tanta rapidez, profundidade e abrangência que as coisas mudam muito depressa. Quem acreditava em drone, em Uber há cinco anos? Diante disso, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico ou Econômico (OCDE) fez um trabalho junto à FAO com dez anos de lapso pela frente, um estudo mais factível, em que mostra que a oferta mundial de alimentos tem que crescer 20%, ou seja, 2% por ano. Parece trivial para nós aqui, pois nós crescemos de um ano para o outro 13%. Porém, a União Europeia cresce 4%, Canadá e EUA 12% e países da Eurásia, 15 %. Então, a OCDE fez a seguinte conta: para que o mundo cresça 20% em dez anos, o Brasil tem que crescer 40%.

E o que falta para o Brasil ser protagonista? Um plano estratégico?
Então, este é um chamamento de forma inédita na história contemporânea. O mundo está pedindo para o Brasil crescer o dobro que o mundo crescerá. Nós podemos? Podemos. Vamos fazer? Não sei. Depende de uma estratégia articulada público-privada em que Executivo e o Judiciário encontram o caminho adequado, não ideologizado para desenvolver quatro ou cinco temas centrais.

Quais seriam estes temas?
Os principais temas são logística, renda no campo, comércio e tecnologia. Em termos de logística, aqui no Sul é mais tranquilo, mas vai lá no Mato Grosso, em Rondonia, na região do Matopiba. Ando o Brasil inteiro e não se faz nada em termos de logística. Sobre a renda no campo, enquanto todos os países do mundo montaram políticas públicas para garantir renda para o agricultor (porque a única forma de abastecer o urbano é o produtor rural ficar na terra), o Brasil ainda não entendeu isso. Comércio? Hoje em dia, 40% do comércio de alimentos acontece em acordos bilaterais. Nós não temos nenhum acordo relevante. E, por último, tecnologia. Nós temos a melhor do mundo, tropical. E isso explica o nosso crescimento, mas é preciso ser dinâmico, não pode parar de investir. Estive nos EUA recentemente e lá quem cuida de tecnologia agrícola são cientistas, tem acordos até com a Nasa.

E a questão da segurança sanitária?
A Operação Carne Fraca mostrou nossa debilidade. Num mundo competitivo como hoje, com informações em tempo real, é preciso estar atento a processos. É a regra do jogo. Se você cresce, alguém diminuiu e quem perdeu mercado, é óbvio, não está feliz com você e vai procurar os seus erros para retomar aquele mercado. Então, não podemos cometer erros desta natureza.

Como engajar a sociedade nesta plataforma para o Brasil?
Aqui, vou fazer um mea culpa. Eu passei boa parte da minha vida criticando a sociedade urbana pelo desprezo ao homem do campo. Nós somos o quarto PIB, temos uma importância crucial para a economia e política brasileira e nunca houve uma visão da sociedade urbana positiva em relação a este assunto. Eu fui um crítico ferrenho da sociedade urbana e de uns dois anos para cá me dei conta de uma coisa tão óbvia: se você critica alguém, este alguém nunca vai te amar.

E qual é o discurso do “amor”?
É simples, valorizar o campo e a cidade. Sim, o agronegócio brasileiro é um sucesso estrondoso e nos últimos 30 anos cresceu de forma espetacular, mas isso se deve somente aos agricultores? Não apenas. Quem faz gente? A universidade, que é urbana. Quem produz máquinas agrícolas, tratores, colhedeiras? A indústria, que é urbana. Fertilizantes? Indústria urbana. Sementes? Banco? Seguradora? Armazém? Indústria de alimentos? Feira? Supermercado? É tudo urbano. Eu, agricultor, não faria nada sem o urbano também.

Esta tem sido a sua missão?
Sim, estou nesta missão quase mística de convencer as pessoas de que não há um único brasileiro que não tenha ligação com o agro. Calça jeans é algodão (não existe calça jeans sem algodão), então, todas as pessoas do país e do mundo tem ligação com o agro. É preciso comunicar a sociedade que ela é irmã siamesa do agro e vice-versa. Estou com 75 anos e ainda quero ouvir: nossa agricultura é a melhor do mundo!

Falta-nos orgulho?
Enquanto nos outros países, o agricultor é reverenciado, aqui há uma rivalidade. Vá numa festa sábado à noite em Nova York, por exemplo. Lá tem um menino de 25 anos de botina e fivelão na cintura com orgulho de ser agricultor. Recentemente fizeram uma pesquisa na França e 70% da população disse que os agricultores são heróis. A atriz Catherine Deneuve ganhou um prêmio e dedicou aos agricultores. Assim, como o mundo todo tem orgulho, precisamos despertar isso. Veja Cascavel, a cidade é um modelo de desenvolvimento. E quem fez Cascavel? A agricultura.

Qual o embrião desta hostilidade?
É uma ideologia desde as Capitanias Hereditárias. A maior mentira da história do Brasil foi de Pero Vaz de Caminha. Ele disse que aqui em se plantando tudo dá. Isso é falso. O Brasil tem pouca terra fértil, é um país de terra ruim. O cerrado é um exemplo disso. Aí vem Monteiro Lobato e cria o Jeca Tatu, um sujeito preguiçoso e indolente. Então, no imaginário popular, qualquer tonto planta, pois em se plantando tudo dá. Pra piorar a situação, vem JK e chama o agricultor de chorão, depois vem o FHC e diz que os agricultores são caloteiros. É uma imagem negativa que vem sendo construída ao longo de séculos. Como mudar isso? Comunicando certo e se empenhando numa estratégia. Nós precisamos ter uma estratégia, ter um líder. Se não é possível ter um líder mundial no Brasil, que o país seja um líder mundial.

Legenda:

Roberto Rodrigues: “O mundo está pedindo para o Brasil crescer o dobro que o mundo crescerá. Nós podemos? Podemos. Vamos fazer? Não sei”

FRASES
“A maior mentira da história do Brasil foi de Pero Vaz de Caminha. Ele disse que aqui em se plantando tudo dá. Isso é falso. O Brasil tem pouca terra fértil, é um país de terra ruim. O cerrado é um exemplo disso”

“Aí vem Monteiro Lobato e cria o Jeca Tatu, um sujeito preguiçoso e indolente. Então, no imaginário popular, qualquer tonto planta, pois em se plantando tudo dá”

“Pra piorar, vem JK e chama o agricultor de chorão, depois vem o FHC e diz que os agricultores são caloteiros. É uma imagem negativa que vem sendo construída ao longo de séculos”

COMENTÁRIOS

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Onde comprar